O passarim

O passarim
17/09/2017 Thales Tozatto

O primeiro bocado de luz me chama a atenção por baixo da cortina e finalmente me tira da cama. Boto meu chapéu e vou pra janela receber o dia que já não era novo. Tinha passado a noite toda acordado por motivos de vodka no meio do domingo seguido de cochilo de três horas. Ainda me sentindo o professor contemplativo do sensibilíssimo filme que acabara de ver (que não usava chapéu, mesmo numa época mais propícia que a atual) abro a cortina e me deparo com um passarinho que tinha penas de um amarelo muito mais certo do que o sol daquele Novembro indeciso. Paro ali e fico admirando a leveza daquilo. Numa selva de concreto e aço como essa um animal aparentemente tão puro e sábio jamais confundiria um prédio com uma árvore. Não tinha nada pra ele ali na sacada, a última planta que viveu ali só viveu porque não era eu que ali morava . Hoje em dia não permito humanos pisarem no local devido à sujeira quase constante (mais ou menos como a gente faz com o coração). O tal pássaro amarelo ficou ali pulando na minha frente entre as barras de aço vermelho-não-se-jogue e não me olhou nem por um instante (não me pergunte por que eu queria isso, nem eu sei). Mesmo assim ele ficou ali me provocando, exibindo seu poder de voar pra qualquer lugar sem o peso de qualquer preocupação. Eu gostei muito daquilo tudo, mas meu lado pessimista logo surgiu como sempre surge quando algo bom acontece: “se você tentar tirar uma foto ele vai voar”. O pensamento não poderia ter sido mais profético. A criatura voou enquanto minha máquina supostamente moderna iniciava o aplicativo “câmera” (talvez com uma câmera do tempo em que ainda se usava chapéu eu tivesse conseguido a foto). Fiquei pensando se não era uma mensagem estilo Black Mirror, me avisando que eu não preciso compartilhar tudo pra curtir (como eu odeio que o Facebook se apoderado de tais palavras!). Embora a mensagem faça sentido, meu ceticismo me lembrou que provavelmente o pássaro só encheu o saco daquela sacada morta e nem me viu pegar o celular. Seria ótimo se todas as segundas feiras começassem assim.

Peso de Porta Nossa Senhora de Fátima
Peso de Porta Abóbora
Peso de Porta São Judas Tadeu
Peso de Porta Santo Antônio

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